12.2.12

Capítulo 24 - Contrastes

Acordei para um novo dia...Chuvoso. Senti o aroma de café penetrar pela fresta da porta e depois de fazer preguiça na cama King Size de meu mais novo quarto, decidi descer as escadas e dar bom dia para o "Mundo Real".
Chris estava sentado no sofá, mexendo em seu IPad. Algo que fazia sempre que tinha tempo livre. Disse um Bom dia tímido em inglês e, em resposta, tentei soltar algumas palavras, que saiam sempre misturadas a outras em japonês. Meu cérebro se acostumara com a pronúncia e entonação do japonês e demorava a se acostumar com a sonoridade que existia no inglês. A gramática também resolvera travar dentro da boca e meus ouvidos pareciam surdos a pronúncia de palavras de outro idioma que não fosse japonês ou português.
Para despertar minha mente, resolvi tomar um pouco de café, que era AMERICANO e não japonês. Ergui as mãos para o céu e entoei o canto de Aleluia. Finalmente um café descente para acabar com meu jejum de três meses de café "de verdade". Passara os últimos dois meses sofrendo ao ingerir o fraco café japonês e só o sabor do café americano já me despertara e melhorara em 100% meu ânimo. A verdade é que eu estava exausta. A corrida contra o tempo na noite anterior, em que fugíamos do Tufão que se aproximava de Tokyo, carregando duas malas de 32 Kg havia deixado meu braço em frangalhos e minha perna pintada de manchas roxas que teimavam em não desaparecer.
A falta de vocabulário em inglês, a dificuldade para a comunicação, os dois últimos meses de passeios e viagens haviam tragado num só gole toda a minha energia. Tudo o que eu queria era vegetar na cama, ler um livro, ver um filme ou à TV japonesa e cochilar até dizer “Chega!”. MAS, o sonho não poderia se tornar realidade. Não enquanto estivesse em Tokyo, a cidade da diversão.
Depois do café da manhã em estilo Francês, que o Chris preparou para mim, li a cartinha escrita pela Hitomi em Post It e fixada à porta da geladeira, marcando um encontro comigo na estação de Shinjuku (próximo ao centro de Tokyo) às 19h. Resolvi trocar rapidamente de roupa e sair. Disse para o Chris que ia sair e ele, sem esboçar nenhuma reação em particular disse algo que, confesso, não entendi. Saí de casa com um suspiro de alívio. Inglês me irritava e era-me enfadonho usá-lo.
Por mais que a chuva caísse sobre a capital sempre movimentada, o calor não abrandava. O mormaço fazia minha camiseta se encharcar de suor e minha garganta secar a cada 300m que andava. Para minha sorte, ou azar, é que a cada 100m existe uma daquelas máquinas de venda eletrônica, com as mais diversas bebidas prontas para serem consumidas. Gastei uma verdadeira fortuna nessas máquinas só comprando chá e coca cola.
A Hitomi morava na província de Kanagawa, próxima a Tokyo. O transporte era o trem da linha Odakyuu, uma das mais caóticas devido ao movimento intenso de pessoas. Como a estação de Soubudai Mae (a mais próxima de casa) era pequena, o trem Expresso passava por ela sem parar. Era preciso pegar um trem Local até Machida, estação principal, e de lá, subir num expresso lotado para Shinjuku. Umas das estações principais de baldeação em Tokyo.
Subi num trem lotado, dando vivas pelo ar condicionado estar ligado e fui até Shinjuku. Chegando lá, dei de cara com os letreiros gigantes, placas de neon, pessoas transitando pra lá em pra cá em passos ritmados e rápidos. Eu não conseguia acompanhar este ritmo. Acabara de voltar de Osaka! Uma metrópole tranquila, em que a maioria das pessoas anda calmamente pelas ruas, sem correria...
Correria! A palavra que define Tokyo quase perfeitamente. Existe correria para tudo. Seja para comer, seja para andar, seja para comprar, provar uma roupa ou sapato, escolher o sabor do lanche do Mc Donalds. Para tudo na vida de um habitante de Tokyo, existe a palavra CORRERIA no começo, no meio e no fim.
Resolvi não seguir o ritmo rápido e andar em passos lentos. Fui empurrada, xingada, recebi olhares feios. A lei da adaptação também faz parte do quadro de regras a serem seguidas na cidade. Ou você se adapta ao ritmo, ou vai ser linchado. Ou você corre, ou você corre e fim de papo.
Depois de entrar em algumas lojas de eletrônicos, resolvi entrar numa livraria. Foi frustrante. A falta de conhecimento em Kanji me impedia de ler os livros japoneses. Entrar numa livraria e não conseguir ler um livro ou revista é triste demais para uma devoradora de livros feito eu.
Passei 3 horas andando por Shinjuku e enjoei. Uma coisa que considero prática e ao mesmo tempo desinteressante no Japão é o esquema de Redes de Lojas.  Aqui no Brasil, o preço de um determinado produto costuma variar de uma loja para outra. No Japão o preço é catalogado e as lojas são iguais em todas as cidades. Ou seja, toda a loja que visitara em Osaka, visitava em Tokyo. Nas prateleiras, os mesmos produtos sendo vendidos pelos mesmos preços. 
Recebi um telefonema da Hitomi, ela estava me esperando na plataforma de metrô. Encontrei-me com ela e voltamos juntas para casa depois de tomar um Frapuccino de Chá verde no Starbucks. Eu adorava o sabor daquela bebida, que mesclava amargo do chá verde ao doce do chantilly. Até o sabor de um frapuccino era contrastante.
Aliás, se Correria define Tokyo, Contraste define o Japão num todo. Arranhas céu cortando as nuvens são construídos ao lado de templos antiquíssimos. Liteiras puxadas por jovens uniformizados parecem apostar corrida com os carros de última geração das montadoras japonesas, senhoras de Kimono sentadas num banco de metrô falando ao celular. O Celular? Um IPhone. Esse contraste é fortíssimo em Tokyo. Uma metrópole que mistura os valores da cultura japonesa aos da cultura ocidental, criando uma cultura nova e diferenciada. Algo que só existe ali, naquele arquipélago chamado Japão, Nihon, Nippon, Japón, Japan, ou seja lá o que for.
Talvez essa seja a mágica do Japão. O que convida milhares de jovens ao redor do mundo a estudar sua língua, história e cultura. Esse contraste, essa mistura de valores e seus frutos, uma sociedade única. A Cultura japonesa é isso. Não é um quebra-cabeças igual à cultura Brasileira, mas é, no mínimo, uma interessante obra de Arte Moderna inspirada em estilo barroco.
Voltamos para casa conversando em português. No metrô a minha língua materna despertava a atenção dos passageiros  e a mistura dela com o japonês era algo que deixava-os curiosos. Chegando em casa, o jantar já nos esperava. Comemos, tomamos banho e, depois de ensaiar com meu sanshin, fomos dormir.
Fechei-me no quarto, como passaria a fazer todas as noites e guardei minha sacola de compras. Pensei no ritmo de Tokyo, não me adaptaria a ele tão facilmente, mas somente 7 horas me separavam do dia seguinte e resolvi ocupá-las com sonhos. Fechei meus olhos e adormeci.

3 comentários:

  1. As máquinas de bebidas realmente ajudam muito. Até msm no inverno! Beijos

    ResponderExcluir
  2. Resolvi não seguir o ritmo rápido e andar em passos lentos. Fui empurrada, xingada, recebi olhares feios. A lei da adaptação também faz parte do quadro de regras a serem seguidas na cidade. Ou você se adapta ao ritmo, ou vai ser linchado. Ou você corre, ou você corre e fim de papo.



    kkkkkkkkkkkkkk,imagino,pelo q se ve na tv,realmente parece ser pior do q o centro da cidade no rj

    ResponderExcluir
  3. Realmente em qualquer loja os produto que você quer sempre está na mesma faixa de preço. Por isso muitos jáponeses optam em fazerem compras pela internet, ou seja Amazon.
    Muito bem Narrado seu dia dia, me indentifico muito com você!

    ResponderExcluir